Entrevistei Eva II

05/09/2013 by

Entrevistei Eva II
Gente de Deus,
Nessas entrevistas simuladas, procuro me posicionar no momento que julgo adequado para esclarecer pontos que edifiquem a nossa fé.
E eu mesmo fico surpreso com o que “ouço” das pessoas, embora seja eu mesmo a dizer.
O que ocorre é que, ao me colocar no lugar da pessoa, de entender seu drama, as coisas se esclarecem. Até eu fico surpreso.
Eu imaginava a Eva uma tola, tipo cliente de shopping center, atrás de coisas que satisfazem à carne, e sem um conteúdo de vida expressivo.
Quando tentei entrar em sua vida, olhando o mundo como ela o viu, aprendi.
E descobri que, em nossos muitos preconceitos, enfatizamos demais ela ter caído em tentação e de ter levado ao marido o elemento (fruto) para também transgredir – e deixamos de enfatizar que ela é a mãe de todos os seres, ou fonte de vida – e é isso que o seu nome Eva significa.
A mim, portanto, despontou a Eva mãe, com seu drama de mãe, mais do que qualquer outra coisa.
Também fui induzido a imaginá-la inteligente, capaz de dialogar com lógica, e creio que o pouco que dela se diz, e o pouco que ela disse, dá para se perceber uma mulher inteligente, sensível, apta a bem interpretar o que lhe ocorria.
Sei que você pode aprender ainda mais, vivendo, mesmo em sua imaginação o drama dessas pessoas que se tornaram tão importantes para nós.
Elas são como o alicerce da humanidade, condicionando de modo marcante esses edifícios que somos nós.
Com vocês, Eva, a Mãe de todos.
- Eva, em nossa primeira conversa, ficou claro que a perda do Jardim foi grande, mas a perda maior foi a da comunhão direta e plena com Deus.
- Sim, Deus é amor e tudo o que precisamos é ser amados. Quem é amado precisa corresponder, mas, nós falhamos em corresponder ao amor de Deus.
- Certamente. Mas, Deus não foi derrotado…
- Não, porque a vitória de Deus está em que sejamos livres para escolher: corresponder ao seu amor, ou não.
- Entendi. Então, não interessa se correspondemos ou não, e sim que sejamos livres para fazê-lo?
- Não exatamente. A vitória de Deus está em nos possibilitar a liberdade, mas o desejo dele é que correspondamos ao seu amor. Para isso nos criou. Certamente seu projeto não seria vencedor se ninguém o amasse.
- Apesar dos erros?
- Apesar dos erros. É como um filho.
- Como assim?
- Você não deixa de amar um filho porque ele erra. Seja qual for o erro, você está pronta a perdoar. Só não tem jeito quando ele rejeita você.
- O caso do Caim, desculpe mencionar, deve ter sido difícil para vocês…
- Muito difícil. Ele teria que morrer por ter matado o Abel. Mas, o Senhor concedeu que ele continuasse a viver, embora não podendo mais morar conosco.
- Entendo. Se houvesse um meio de mantê-lo com a família vocês teriam ficado com ele em casa?
- Sim, certamente.
- Interessa, então, que o filho fique em casa e que ele busque o amor dos pais como apoio para reiniciar uma nova vida?
- Sim. Veja que, na infelicidade ocorrida com Caim e Abel, nós perdemos os dois.
- Interessante. No caso de Rebeca, ela errou feio ao incentivar o filho Jacó a enganar o pai e o irmão. Depois ficou receosa que o Esaú matasse o Jacó. Se isso acontecesse ela perderia os dois, como você. Por isso ela despachou o Jacó para longe. Por causa do erro terrível que cometeu, Rebeca ficou sem o filho que amava e ficou com aquele que não amava. Você, Eva, não teve como deter o erro do Caim, então perdeu os dois. Será que podemos concluir que você, como mãe, foi punida por ter dado lugar ao inimigo, iniciando essa tragédia?
- Não sei dessas pessoas de quem você fala, mas certamente a mãe paga caro quando erra em seu papel de ajudadora do marido.
- Sei. A posição de autoridade é do esposo. Ele responde perante Deus. Se a esposa se deixa levar pelo maligno, os filhos pagam, e ela fica sem eles de alguma forma.
- Esse foi o nosso caso.
- Hum, entendo. Mas, o amor cobre uma multidão de pecados…
- Certamente. Se nos voltamos para o Senhor dispostos a um novo caminhar, Ele nos concede uma nova oportunidade.
- O Senhor nunca desiste?
- Ele nunca desiste de nos amar.
- O que ocorreu no caso de vocês?
- Ele nos deu o Sete. E agora o nosso Bebê, o Enos, filho do Sete.
- Que maravilha!
- Sim, estamos consolados. É horrível ficar sem filhos, sem bebê… (Eva chora ao lembrar o tempo em que ficou sem os filhos. Aguardo, paciente).
- É importante ter os filhos por perto, mesmo aqueles que cometem erros?
- Responde você mesmo: Você ama o filho que faz as coisas corretamente, ou aquele que corresponde ao seu amor com atenção e carinho, apesar dos erros?
- Acho que fico feliz com o primeiro e vou preferir o segundo.
- Por que você não prefere o primeiro?
- Porque ele age corretamente, mas não alimenta a relação entre pai e filho.
- Logo, você entende que a relação entre você e seu filho é mais importante do que agir bem, pura e simplesmente?
- Sim, é isso. Aí está uma boa resposta para a pergunta sobre a perda do Éden.
- Como assim?
- O Senhor não deixou de nos amar. Se erramos, mas mantemos a esperança nele, então podemos continuar sendo felizes, apesar das lágrimas e das dores.
- Nada pode nos separar do amor de Deus?
- Nada.
- Nada?
- Enquanto nós decidimos amá-lo apesar de nós mesmos, ele nos aceita. Ele é capaz de nos perdoar inúmeras vezes. Ele só não pode nos ter por perto se nós o rejeitamos.
- Os erros, então, não impedem que sejamos aceitos?
- Não impedem. Tornam-se um motivo para reconhecermos nossas limitações e desejarmos a solução que vem dele.
- Tornamo-nos cada vez mais dependentes de Deus?
- Sim. E olha que, quando nós recorremos ao Senhor, depois de errar, nós aprendemos o caminho da reconciliação e confiamos sempre mais no seu amor.
- É uma grande descoberta?
- Sim, uma grande descoberta.
- E, quando não o buscamos nós nos tornamos cada vez mais incapazes de recorrer a Ele?
- Sim. Vai ficando cada vez mais difícil, até que o pecado prevaleça.
- Foi o que aconteceu com o Caim?
- Foi. Ele deveria ter imitado o irmão e seria aceito.
- Logo, se você assume que Ele ama você incondicionalmente, então vai buscá-lo sempre que se sentir vazio, desmotivado, triste.
- É isso que você deve fazer sempre.
- Deus é amor!
- Deus é amor.
- Isso significa que o íntimo dele é amor, que as suas intenções são de amor, que as suas palavras são de amor…
- Que as suas obras são de amor, que as oportunidades que nos dá são expressão de seu amor, que suas decisões são de amor.
- Mesmo depois de nossos erros?
- Sim.
- Deus não muda?
- Deus não muda. Ele é sempre amor.
- Mas, Deus não expulsou vocês do Jardim?
- Certo, mas não desistiu de nós.
- Não desistiu?
- Não.
- Como “não desistiu”. O que Ele fez?
- Ele nos deu o sacrifício. Cada vez que oferecemos um sacrifício a Ele, estamos dizendo que concordamos com o seu juízo sobre nós e que é preciso que sangue seja derramado, que uma vida tenha que se perder. Com esse reconhecimento Ele nos aceita.
- E vocês entram em comunhão com Ele, renovados?
- Sim.
- Hããããm! Esses sacrifício apontam para um sacrifício perfeito que há de ocorrer no futuro, um sacrifício perfeito de uma vítima inocente, porém consciente – murmuro.
- O quê?
- Nada, nada, só estava pensando. Mas, diga-me algo que precisamos entender melhor…
- O que é?
- Você deu atenção para a serpente, no Éden, e isso veio a ser o erro grave, concorda?
- Sim, nós tínhamos contato com todos os animais no Éden. Dávamos atenção a todos eles. Lembre-se que Adão deu nome a todos eles. Todos eram conhecidos.
- Até a serpente?
- Sim, ela era a mais sagaz de todos os animais.
- Que coisa!
- Alguns animais são importantes porque nos trazem benefícios, outros são importantes porque temos que evitá-los. Recebendo os bons e evitando os maus estaremos agindo sabiamente.
- E você não foi sábia…
- Não, não fui.
- Por quê?
- Porque fiquei indignada quando a serpente insinuou que Deus teria nos dito que de nenhuma árvore do Jardim poderíamos comer.
- Entendo. A serpente provocou a sua indignação. Huuuum, interessante!
- O quê?
- Nos filmes lá de meu tempo, eles começam com isso também. Eles nos iludem iniciando com uma cena de assassinato, ou de injustiça extrema, que nos leve a embarcar no drama. Desse modo, nós ficamos interessados no que vem a seguir. Nós participamos, então, das intenções conduzidas pelo diretor do filme. Interessante, a história é a mesma.
- Não sei do que você fala, mas se parece com o que a serpente fez comigo.
- Sei. E você reagiu indignada?
- Sim, e a serpente aproveitou para negar o que Deus tinha afirmado.
- Até aí trata-se apenas de conversa, mas você agiu – foi você que tomou o fruto proibido, comeu, deu ao Adão e ele também comeu. Você errou feio. Se tivesse apenas ficado em palavras, a coisa não seria tão grave.
- Sim, é verdade.
- Mas, responda-me: Por que Deus colocou aquela árvore proibida no Jardim?
- Porque Deus é amor.
- Como isso pode ser?
- Se não tivéssemos opção, não seríamos livres. Não sendo livres, não seríamos amados. O amor dá liberdade à pessoa amada.
- Sim, onde está o Espírito de Deus aí há liberdade.
- Perfeito. E quando mais próximo de Deus você estiver, mais livre será para desobedecer, mais fácil será. A sua liberdade atinge o máximo na presença de Deus.
- Interessante. Então, como você consegue aproximar-se dele e não errar?
- Dando lugar a Ele.
- Entendi. Ele dá espaço a você, que pode errar; mas você, que sabe que pode errar, dá lugar a Ele?
- É isso.
- Entendi. Então tinha que ter uma árvore proibida. Entendi. Mas, não poderia ser duas ou mais?
- Uma é o mínimo suficiente para sermos livres. Duas já indicariam que Ele tinha algum desejo que pecássemos. Se, ainda, houvessem muitas árvores alternadas, uma autorizada outra proibida, significaria que Ele era indiferente. Mas, Deus é amor, então, uma só.
- Entendo. Então, Ele deu a vocês todo o Éden, mas restringiu uma árvore apenas, porque desejava que vocês fossem livres. Se não tivesse uma árvore proibida no Jardim vocês não seriam livres. Uma árvore é o mínimo para que vocês tivessem liberdade.
- É isso, você entendeu. Um fruto proibido é suficiente para dar significado a todos os outros que são autorizados. Estes são autorizados porque o outro é proibido.
- Entendi. Não se trata apenas de comer, mas de concordar com o Deus que ama?
- Sim. Essa é a nossa vitória.
- Não entendi.
- A vitória de Deus está em nos dar liberdade de escolha. A nossa vitória está em escolher corretamente, correspondendo ao seu amor.
- Enquanto come dos frutos permitidos, todo o Jardim é seu?
- Exatamente.
- Mas, se você comer daquela única árvore proibida estará errando e sendo condenado a ficar sem todas as outras?
- Foi o que ocorreu. É isso. Ele nos expulsou, de modo que não tivéssemos acesso às árvores outras todas.
- Nem pudessem comer da Árvore da Vida?
- Nem da Árvore da Vida. Ficamos sem nada.
- Agora, dependem do sacrifício animal?
- Sim, dependemos. Sem derramamento de sangue não há perdão de pecados.
- Antes, um vegetal servia?
- Sim, uma fruta. Agora necessitamos de sacrificar um animal.
- Todos pecam?
- Todos.
- E se tiver uma exceção?
- Alguém que não peque?
- Sim, uma pessoa que não peque.
- Não consigo imaginar. Nossos filhos pecam, nós pecamos.
- Através de uma mulher, Eva, entrou o pecado no mundo…
- Infelizmente é verdade. A serpente me iludiu.
- Mas, não iludiu o seu marido, o Adão. Ele fez escolha consciente.
- É verdade.
- Mas, e se através da mulher, que foi enganada, vier um fruto, um menino, que não peque?
- Como poderia ser, se o próprio homem escolhe conscientemente pecar?
- Esse menino seria filho de uma mulher, mas não seria filho de homem.
- Como assim?
- Ele seria filho do próprio Deus. Ela seria engravidada pelo poder de Deus, por seu Espírito Santo que dá vida.
- Eu já sou avó e não mais tenho condições de ser mãe.
- Bem, não será através de você, mas de uma de suas filhas, que há de nascer daqui a muito tempo, muitos séculos. Você é importante, mas ela será ainda mais importante do que você. Através de você veio o pecado; através dela virá aquele que vence o pecado. A serpente será esmagada, como lhe prometeu o Senhor.
- Essa mulher será, então, bendita entre as mulheres e bendito será o fruto do ventre dela. Uma privilegiada!
- Sim. E seu filho será o resgate final para todo aquele que espera no Senhor. Para todo aquele que deseja optar corretamente.
- Que coisa linda! E ela o terá para sempre consigo?
- Não. Ela vai perdê-lo.
- Vai perdê-lo. Por quê?
- Por que você e seu marido pecaram e deram entrada ao pecado no mundo. E para tirar o pecado do mundo, o filho dela dará a sua vida, derramando seu sangue.
- Assim como um cordeiro que sacrificamos?
- Sim.
- (Eva se turba, lágrimas lhe correm pelo rosto. Mas, reage, consciente de seu erro).
É triste saber que outra mãe vai ficar sem o seu filho. E por causa de nosso erro – comenta, entristecida.
- É verdade, Eva, mas tenho uma notícia boa.
- Qual?
- Ele vai vencer a morte e voltará para ela. E depois eles estarão juntos para sempre!
- Para sempre?
- Para sempre!
Encerro a entrevista, deixando a Eva feliz, a imaginar como uma mãe pode ter o filho amado para sempre, sem jamais perdê-lo.
Ela fica naquele jeito imaginativo, rosto voltado para cima, olhar perdido.
Um sorriso lhe assoma aos lábios.
Acho que ela vai concluir, uma vez mais, que o Senhor tudo pode em favor daqueles que decidem servi-lo.
Ela vai concluir que Deus é amor, uma vez mais.
Agora, em favor das mães.
Massuia

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