Entrevistei Mesa, rei de Moabe, o desesperado

10/12/2013 by

Entrevistei Mesa, rei de Moabe, o desesperado
Gente de Deus,
O Rei Mesa, de Moabe, talvez fosse um idólatra comum, reinando sobre um povo pecador, que ele quis libertar do inimigo, mas fracassou, até que, no desespero final, ele praticou um ato terrível que está registrado lá em II Reis 3. Eu quis explorar isso, pela semelhança com algo que nos é tão caro.

- O senhor é o Rei de Moabe e praticou um ato extremo, isso gerou tanto constrangimento que o texto escrito a respeito ainda causa constrangimento, milênios no futuro, de onde eu vim. Conta sobre isso.

- Bem, tudo começa com uma situação de guerra em que nós pensamos que tinha havido luta entre os coligados de Israel, Judá e Edom. Eles estavam unidos contra nós, mas eles nunca se deram bem. Vieram águas vermelhas em quantidade, mas não chovera, de modo que a interpretação foi aquela: Rios de sangue…
- Mas, o senhor não acha exagerado explicar uma enxurrada como sendo sangue?
- E como você explicaria enxurrada vermelha sem chuva?
- Não sei, mas talvez interpretasse segundo a conveniência.
- Foi essa a nossa interpretação. Era nossa única saída a destruição mútua dos inimigos coligados. Não tínhamos chances contra aqueles três reis e seus exércitos.
- Permita-me fazer-lhe uma pergunta sobre as dificuldades de vocês manterem a paz com os irmãos. Qual o problema?
- Achamos natural, anualmente, sair à guerra.
- Em que tempo isso ocorre?
- Na colheita.
- Por quê?
- Porque temos o suprimento para os nossos soldados lá nos campos do inimigo. E temos o que recolher. Eles plantam, nós vamos lá colher.
- E eles fazem o mesmo com vocês?
- O mesmo.
- Vocês não conseguem viver em paz?
- Quem assim desejar viver se tornará presa fácil do inimigo.
- Por quê?
- Porque não estará treinado para a guerra, não terá armas disponíveis. Quem vive quieto e confiado acaba sendo exterminado.
- É horrível, mas é verdade.
- Sim, você não quer perder seus filhos pela violência da guerra, mas é inevitável que isso ocorra.
- Entendo, é triste de fato. E quem perde a guerra torna-se escravo do outro?
- Sim, e enquanto aceitar a servidão. Se pagar tributo não haverá guerra. Nós estávamos pagando tributo a Israel. Com a morte de Acabe, cessamos de fazê-lo, mas o Rei Jorão saiu contra nós. E pediu o apoio de Judá e Edom.
- Que coisa! É preciso se rebelar, então, contra o jugo dominador para ser livre?
- É isso. Escravidão e paz andam juntas aqui. A liberdade só vem com a luta.
- Não tem jeito?
- Você pode se coligar a outros, de modo a impor respeito sobre os adversários.
- Dá certo?
- Nem sempre, mas é um alternativa sábia para todos os coligados.
- Vocês não tem opção, são obrigados a lutar?
- É isso. Todos os que podem lutar precisam se armar e enfrentar o inimigo. Se não enfrentarem tornam-se escravos. É preferível lutar.
- Como rei o senhor deve enfrentar situações e decisões difíceis.
- Sim, você fica diante de opções terríveis, mas precisa escolher.
- Quando vocês viram a enxurrada vermelha imaginaram ser sangue dos inimigos que se destruíam mutuamente, daí decidiram sair das cidades fortificadas para buscar os despojos…
- Foi isso. Mas, os inimigos estavam prontos e nos derrotaram.
- Aí vocês recuaram e se protegeram como podiam?
- Foi isso. É o que fazemos.
- Entendo. E o senhor recuou até Quir-Haresete?
- Era nossa última defesa.
- Mas, os fundibulários atacaram mesmo assim?
- Eles estavam decididos a nos destruir completamente.
- Não havia termo de paz?
- Não havia.
- E no desespero o senhor sacrificou seu próprio filho primogênito, o herdeiro de seu trono? Sobre o muro?
- Sim. (o Rei de Moabe se perturba com a lembrança. Seu coração fica dividido entre a lógica do sacrifício desesperado e a perda. Parece algo como se suicidar e ainda continuar vivo, algo como viver sem esperanças).
- O senhor conseguiu deter a fúria dos adversários, mas o preço foi alto demais.
- Foi alto demais. (Ele sofre ao lembrar. O quadro é pungente).
- O senhor acredita que se alguém dá o próprio filho em sacrifício, o oponente vai entender que já foi longe demais com a sua ira?
- Sim. Eu quis dizer isso: Vocês me roubaram tudo, isso não é justo.
- Eles deveriam ter tido misericórdia um pouco antes…
- Sim, é o que sempre fazemos – oferecemos condições de paz. Eles desejavam aniquilação.
- O seu ato foi um protesto, então?
- Sim, foi um protesto. Por isso foi sobre o muro. Foi para que todos vissem.
- Vendo, eles tomariam uma decisão?
- Era o que eu esperava.
- Eles ficariam tocados ante tanta renúncia?
- Sim.
- Por quê?
- Você oferece o seu filho em holocausto, o  seu herdeiro; é a renúncia maior que um homem pode fazer. O opositor nada mais pode requerer.
- Eles deveriam ter se detido antes?
- Deveriam, mas o Rei de Israel desejava a nossa aniquilação.
- Por isso os reis e os soldados se indignaram contra o Rei de Israel ao verem o seu ato?
- Sim, e esvaziou-se a causa dele. Ele perdeu os aliados.
- O seu ato foi de desespero completo?
- Sim, nada parecia deter o Rei de Israel diante de sua ira. Recorri ao maior dos sacrifícios.
- Dar o filho primogênito?
- Sim.
- Eles deveriam ter sido misericordiosos.
- Sim. A misericórdia triunfa sobre o juízo. Quem não é misericordioso terá sobre si o juízo igualmente sem misericórdia.
- E o seu filho, como ele reagiu diante do sacrifício?
- Ele aceitou. Ele entendeu que não tinha outra saída. Assim, por seu sangue nosso povo foi salvo.
- Entendo, mas quais foram as últimas palavras de seu filho?
- Ele não falou, nem era preciso.
- Por quê?
- Porque ele confiava em seu pai que o amava e confiava em sua capacidade em achar uma solução que não lhe custasse a vida. Ele não esperava ser desamparado. Ele como que lamentava a impotência do seu pai que não tinha outra saída, a não ser sacrificá-lo.
- E o senhor não tinha outra saída?
- Não tinha. Eu juntei, em desespero, setecentos homens, nossos últimos, e ataquei o Rei de Edom, mas não consegui romper suas defesas.
- Tentou de tudo, até que, no desespero final, sacrificou o que lhe era mais caro?
- Sim, o meu filho primogênito. (O Rei Mesa chora copiosamente. Fico constrangido de provocar isso, mas meu desejo era entender o coração de um pai que chega a esse ponto).
- E agora, o que pensa o povo de seu ato?
- Eles entenderam o preço pago pelo seu Rei que foi ao ponto de sacrificar o próprio filho para que eles tivessem mais uma oportunidade.
- Entendo. Um dia, no futuro, um Grande Rei vai abandonar seu filho, igualmente, e o moço vai morrer nas mãos do inimigo.
- Ele poderia salvar seu filho do inimigo?
- Sim, mas não o fez.
- Por quê? Ele não amava seu filho?
- Amava muito, mas ele também não tinha outra opção. Já tinha tentado de tudo para salvar o seu povo, mas, agora, só restava renunciar a seu filho, em favor do seu povo.
- E o filho aceitou ser sacrificado?
- Aceitou.
- E foi morto?
- Foi.
- E não disse nada?
- Disse.
- O que ele disse?
- “Por que o Senhor me desamparou?”
- “É!”
- É o quê?
- Por mais que a o sacrifício do filho seja necessário, por mais que seja justificado ao pai oferecê-lo em sacrifício, resta a afeição.
- Afeição?
- Sim. Aquela ligação de amor que não se esgota com a lógica.
- Por que não se esgota, se o ato era logicamente necessário?
- Porque tem algo superior, que deveria ser mais importante.
- O quê?
- A vida.
- Como assim?
- Nascemos para viver, não para morrer. Viver é a lógica, mas morremos. E quando a morte é provocada, quando é necessária, quando é permitida ou praticada por quem ama…
- Como fica?
- Fica um vazio imenso.
- Se o senhor pudesse, traria o seu filho de volta à vida?
- Traria, certamente!
- E comemoraria com ele a vitória vinda de seu sacrifício…
- Muito!
- E seriam felizes.
- Para sempre!
Massuia

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