Entrevistei os Magos do Oriente

31/12/2013 by

Entrevistei os Magos do Oriente

Gente de Deus,

Apesar dos gastos do fim de ano, que sempre superam as expectativas, eu estou alegre, e pensei em entrevistar os Magos que visitaram o Menino Jesus, quando já voltavam para a Mesopotâmia, a terra deles.
Curvando-me, demoradamente, em sinal de profundo respeito, eu me dirijo aos Magos, num oásis do deserto, no caminho de regresso à terra deles. Em plena noite, as estrelas no céu escuro, Lua em quarto crescente e um silêncio mágico.
Senhores, eu venho do futuro, de dois milênios à frente, e os senhores são muitíssimo respeitados, admirados e queridos, em nosso tempo…
(Achei que eles entrariam logo no diálogo, mas, mesmo após terem se curvado em profundo respeito, agora, depois de ouvir a estranha saudação, eles fazem uma prolongada pausa. Lembro-me dos tempos, lá na roça, quando os mais velhos conversavam, e eu, pequeno que era, ficava em silêncio, imaginando mil coisas, tanto pelas palavras que acabaram de ser ditas, como das que possivelmente viriam. E vinham sem nenhuma pressa.
Hoje em dia, só consigo conversar assim com os bebês. No mais, é ansiedade pura, em frases incompletas, interrompidas, numa competição para impor pontos de vista).
Finalmente Melquior, o mais velho, fala:
- É uma honra tê-lo conosco, vindo do futuro, trazendo notícias boas a respeito destes humildes servos, nesta noite de estrelas, neste lugar onde o nada nos convida à reflexão do que nos tem ocorrido nestes últimos meses.
(E se inclina, mais uma vez).
(Ele indica, com essa reverência, o respeito, e que eu devo avançar com a conversa. Os outros só falarão quando ele nada disser, e por ordem de idade).
- Uma estrela apareceu no céu e vocês a seguiram.
(Baltazar tem a sua vez de falar).
- Uma antiga profecia, lá do Oriente diz: “Sairá uma Estrela de Jacó, e se levantará um Cetro de Israel”. E, desde nossos antepassados, vimos observando os céus, aguardando a Estrela. E, em nossos dias, ela apareceu.
- E os senhores seguiram para honrar esse Rei? E a estrela, os senhores a chamam de Estrela do Rei?
(Gaspar tem a vez, agora).
- Sim. Somos avisados por Deus e vamos dizer aos pais quem é o filho que lhes nasceu.
- Por quê?
- Para que saibam como cuidar do filho, como evitar os inimigos que desejarão matá-lo para que não assuma o reinado. Ainda para que os pais lhe deem uma educação respeitosa, sabendo quem têm dentro de casa.
- E os presentes…
- São para ajudar a família na tarefa de cuidar do filho.
- Entendo. Esplêndido. Mas, por que os senhores investem tanto no futuro do Menino?
- O próprio Deus cuidará dele. A nós é concedido saber e contar quem é ele, adorá-lo, e lhe dar presentes.
- Saber e contar, adorar e ofertar?
- Sim.
- Depois vocês vão embora?
- Sim. A tarefa nossa está cumprida.
- Se Homens Sábios não forem avisar a família…
- Os pais não saberão, não cuidarão, não respeitarão, e um grande líder não cumprirá seu destino para o bem de muitos. E não terão recursos financeiros para as necessidades.
- Certamente. Pessoas humildes jamais imaginarão que seu bebê será uma pessoa importante. Tão importante assim!
- É certo!
- A tarefa de vocês, então, é muito importante.
- Dedicamos nossas vidas em humilde observação dos céus, de modo a receber de Deus a mensagem.
- Huuum! Vidas consagradas ao serviço de olhar os céus até perceberem uma estrela. Depois, segui-la. Fazer conhecido quem é Ele. Honrar o Menino Rei. Depois, voltar para casa.
- Essa é a tarefa.
- E ficarão conhecidos pela eternidade por esse trabalho.
- Não há busca de glória, apenas serviço – observa Melchior.
- O  máximo de consagração pela renúncia, o máximo de qualificação pelos estudos, pronta obediência na revelação, zelo no serviço. E volta para casa, renunciando a quaisquer recompensas ou privilégios.
- Temos como nosso trabalho – Gaspar observa.
- Se fosse lá no meu tempo, apareceria um bando de “puxa-saco”, “lambe-botas”, “paparazi”, “papagaio de pirata”, “musas da sensualidade”, políticos aproveitadores, marqueteiros de toda sorte, e repórteres sem limite para tirar algum proveito.
- Quem serão esses? – interroga Baltazar.
- Melhor não saber, sábio homem, melhor não saber.
(Eles se encurvam, humildes, por saberem que só podem conhecer aquilo que lhes for revelado. O que está oculto não lhes pertence. E silenciam).
Então, continuo:
- Em nosso tempo, lá no futuro, também existem sábios que perscrutam o céu.
- E eles também são avisados de nascimento de reis por meio de estrela que aparece no céu? – pergunta o Baltazar.
- Olha, Baltazar, talvez até apareçam as estrelas, mas eles diriam que é um cometa, uma super-nova, uma conjunção planetária. E não ligariam a coisa alguma, nem mesmo ao nascimento do próprio filho do Rei.
- Então para que eles perscrutam as estrelas?
- É para, é para, é para….(engasgo). É que, é que.. (a coisa não sai).
(Eles me observam, respeitosamente. Não avançam observações, não ocupam o meu espaço. Apenas aguardam, pacientemente).
Aí, eu tento desembuchar:
- É que eles querem saber a origem do Universo.
(Um silêncio profundo como a noite no deserto paira no ambiente. Apesar do absurdo de minha afirmação, eles respeitam o futuro, o crescimento da sabedoria, o desenvolvimento do conhecimento).
Gaspar, o mais novo, com a liberdade característica do jovem, aproveita o silêncio de liberdade do Sábio Melchior:
- Lá no futuro, eles ainda não chegaram ao conhecimento de que Deus criou o Universo? Como pode ser? Não existem pergaminhos? A sabedoria não é registrada?
- Bem, Gaspar, sim… quero dizer não… É que, é que… (olha eu engasgando de novo). É que os nossos sábios perderam o temor de Deus.
O Gaspar não resiste:
- Sabedoria para nós é temer a Deus. O temor de Deus é o princípio da sabedoria.
- Bem, Gaspar, então acho que o que temos, lá no futuro, não é mais sabedoria. Nem nossos homens do conhecimento são sábios.
- O que são, então?
- São cientistas, homens do conhecimento. são ateus.
O ambiente é de pasmo, mas tais homens não se deixam levar por impactos emocionais, nem são incapazes de imaginar alguma coisa. Você sabe, alguém capaz de perscrutar os céus, achar estrela, segui-la, chegar no lugar certo…
O Velho Sábio Melchior, entra na conversa, com seu ar super contemplativo:
- Quando chegarem à conclusão sobre a origem do Universo, o que eles terão obtido, já que negam a criação de Deus?
- Que eles mesmos são deuses, certamente.
Gaspar está interessado. As pausas já não são tão grandes, embora o respeito ao Melchior ainda governe o grupo. O Gaspar pergunta:
- E eles já têm alguma idéia de como começou o Universo?
- Bem, existe a Teoria do Big-bang, a Grande explosão.
- Como é isso?
- Existiu um momento, conta a teoria, em que tudo o que existia estava concentrado num ponto infinitamente pequeno. Então, aquilo explodiu, dando lugar às estrelas, aos planetas, cometas, até à estrela que vocês viram no céu.
- Tudo o que existe veio do nada?
- É, muito próximo disso. Numa explosão, a matéria foi liberada, a luz passou a existir, foram iniciadas as leis que governam o Universo. E tudo o que veio depois.
- Mas, isso não é o mesmo que nada existir, e Deus, no princípio criar os céus e a terra, com a palavra que sai da sua boca?
- Chega a ser difícil diferenciar, admito.
- E um cientista ateu chegou a essa conclusão?
- Bem, no caso dessa teoria não foi bem um cientista ateu.
- Qual era a ocupação desse sábio?
- Ele era um padre, um religioso profissional.
Neste momento, o Velho Melchior se levanta (os outros se levantam de imediato, e eu também). Ele se inclina, respeitosamente, sem pressa, até que o respeito seja transferido pelo gesto.
Isso feito, ele pronuncia suas sábias palavras:
- Nobre visitante do futuro, a sua sabedoria nos comove, o futuro parece ser interessante, os sábios de seus tempo estão chegando a muitas conclusões sábias. No seu regresso, mencione a eles o nosso respeito.
Curvo-me quanto posso, em profundo respeito e admiração por aqueles homens, particularmente pelo Melchior, que sabe encerrar uma conversa com palavras tão educadas e bonitas.
Penso que ele poderia ter dito, caso fosse do meu tempo, e fosse muito educado:
- Vamos meditar sobre as suas considerações.
Ou, caso não fosse tão educado, diria coisas difíceis de ouvir, mais ainda de escrever.
Vale a pena, contudo, voltar, ainda que em imaginações, àqueles Homens Sábios, à sua viagem histórica, ao sentido dela, ao que ia no íntimo daqueles homens, porque, certamente, essas coisas são eternas.
Não admira que nos lembremos deles todos os anos, que contemos aos nossos filhos, que os representemos quando meninos, em nossos teatros na igreja.
Gaspar

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