Entrevistei Salomão

31/12/2013 by

Entrevistei Salomão

Gente de Deus,

Salomão deve ser o mais injustiçado, hoje, entre os homens bíblicos.
Quando ouço o que dizem dele e, depois, examino as Escrituras, verifico que a coisa não concorda.
O que ocorreu com Salomão para que fosse tido como um mulherengo, quem sabe, libertino, adúltero?
Vamos ver, você ajuda:
- Salomão, eu venho de três milênios à frente, e tenho muito para lhe dizer, talvez coisas que você queira saber, mas permita-me restringir esta entrevista à sua própria vida, já que se tornou tão importante para os seus contemporâneos e será ainda mais importante para muitos que ainda hão de nascer.
- Ouço. Prossiga.
(Ele já começa a impressionar  pela atitude: Ouvir).
- Bem, o seu Reino e suas riquezas serão lembrados no futuro, mas a sua sabedoria ficará como referencial por todos os tempos.
- O temor de Deus é o princípio da sabedoria. É o início da sabedoria, é a base sobre a qual se edifica a vida. E, depois, a sabedoria continua como companheira sempre presente nas decisões e no viver.
- Certamente. Mas, por razões diversas, o seu comportamento para com as mulheres ficará como exceção à sabedoria que você tanto caracteriza…
- Vejo que você tem perguntas. Seja corajoso.
- Como pode um rei de sua estatura envolver-se com tantas mulheres?
- Bem, isso é virtude, em meu tempo. A evidência da prosperidade de um rei está em sua sabedoria, riqueza, vestes, servos, no esplendor dos palácios e no número de mulheres.
- Virtude?
- Sim.
- Mas, o Senhor não nos ensinou, desde o princípio, que cada homem deve ter sua esposa, e cada mulher o seu marido?
- Sim.
- O que ocorre, então? Isso que você vive não é adultério?
-  Não é adultério. O adultério é punido com a morte, em nosso meio. Elas são esposas e concubinas. E não são prostitutas, é bom lembrar.
- Huuuum!
- Lá no seu tempo, os homens têm muitas esposas?
- Não é o normal, mas, em algumas culturas a poligamia é aceita. E está limitada à capacidade do marido de sustentá-las, e aos filhos.
- Bem, eu não tenho tido problemas em cumprir esse dever.
- Sei, mas você não respondeu sobre o desvio do propósito de Deus, que é o homem deve ter uma só esposa.
- Quisera poder ter só a Sulamita!
- Você, então, com essas mulheres todas não está feliz?
- A minha felicidade vem de Deus. As mulheres são imposição do cargo, dos costumes de nosso tempo.
- Cargo e costumes?
- Sim, um rei é respeitado pelo número de esposas e concubinas, pelo número de filhos, com já lhe disse. O homem realmente feliz é o que pode se reunir com a sua esposa e filhos à roda da mesa.
- É. Esse ensino ficou registrado.
(É o Salmo 128).
- Mas, por que mulheres estrangeiras, de outras culturas, de outros costumes, de outros deuses?
- Quando um reinado entra em aliança com outro, os reis trocam filhas em casamento. Essas mulheres vão representando o país de origem. E vão com tudo.
- Com tudo?
- Sim: cultura de origem, deuses de origem, culto e tudo o mais. E precisam de uma casa onde se instalar. Ao rei que a recebe cabe respeitar sua família e sua cultura. Mas, responda: Lá no seu tempo, como é feito o intercâmbio entre governos?
- Bem, existem embaixadas e consulados, representações especializadas.
- E vão, também, com seus costumes, cultura, deuses?
- Sim, sim. E ainda propagam, livremente, a cultura de seu país.
- A aproximação não é feita pelo casamento, mas os resultados são os mesmos, afinal.
- Sim, é o que ocorre. Logo, a sua situação tem pouco a ver com casamento, com satisfação sexual, com amor?
- Você entendeu. A multiplicidade de esposas e concubinas está ligada ao costume, à segurança que o povo tem, sabendo que não faltará sucessor ao trono. Isso é sempre complicado para o Rei e para todo o país.
- Sim, de fato, é o que ocorre com os reinados, em todos os tempos.
- Com as princesas, o compromisso é diplomático.
- E o lado sexual, afinal são esposas?
- Se a busca do homem for somente o prazer da carne, ele poderá estar realizado com muitas esposas, mas o que ocorre não é isso.
- E o que é, então?
- Elas não são meros instrumentos de prazer. Com cada uma existe um compromisso. A realização delas é o filho, a certeza da descendência.
- E…
- Acaba se tornando uma fonte de sofrimento para o Rei.
- Por quê?
- Porque elas não defendem o interesse do Rei, mas o próprio interesse. E competem entre si. O Rei se torna objeto de disputa sexual para gerar filhos.
- E dá vontade de ter uma só?
- Uma só, Uma que você conheça, que possa tomar conta,  e que ame você, igualmente.
- Com quem tenha filhos, que você reconheça e conheça.
- Sim, que você consiga ter tempo para ensinar, colocar sobre seus joelhos e ensinar a sabedoria.
(Há algo de nostálgico em Salomão. Penso que ele sente saudades do tempo em que era filho, sentado com seu pai Davi, a ouvir coisas de Deus, do temor de Deus, da sabedoria que procede de Deus. Exemplo que ele não consegue seguir, tendo que correr o risco de deixar seu sucessor entregue à influência de outros jovens, igualmente insensatos. E as decisões importantes ficarão comprometidas).
- Logo, a poligamia, longe de ser uma fonte de alegria para o homem, resulta em armadilha contra sua felicidade?
- Sempre foi assim. E ainda resulta em disputa das mães pelos filhos, e entre os filhos, por causa dos cargos, dos benefícios, da herança, da sucessão.
(Novamente ele fica pensativo, provavelmente lembrando-se do estupro de Tamar, da vingança de Absalão, seu irmão. Penso que Absalão tenha sido muito admirado e deixou um sentimento de perda e frustração fortes na família. O irmão Adonias que usurpou o trono, as dificuldades com Bate-Seba, mãe de Salomão, e o fim de Adonias, que ele mandou matar, certamente pesam).
Mas, Salomão reage, diante deste interlocutor:
- Lá no seu tempo tem adultério?
- Muito. E não é crime.
- Logo, o homem pode ter quantas mulheres desejar e não é crime?
- É isso.
- Mas, então é muito bom, já que o homem pode satisfazer seus desejos sem responsabilidade?
- Não é bem assim. As responsabilidades são tais com a mulher, ex-mulheres, filhos, que o sujeito pode se tornar escravo de todos. Ele mesmo será o último a ser atendido. E ainda corre o risco de perder sua mulher para outro, a quem sustentará juntamente com ela.
- Mas, isso é ruim demais!
- Sim, penso que o Senhor não deixou saída para a felicidade conjugal, a não ser debaixo do amor entre um homem e uma mulher, mas a falta de sabedoria, a busca do prazer da carne, leva os homens a sofrimentos, muitos sofrimentos.
- Compus três mil provérbios, e mil e cinco cânticos. Espero que lhes sejam úteis.
- Certamente Salomão, certamente.
- E que a multiplicidade de mulheres fique igualmente como algo a não ser seguido.
- Sim, assim penso, mas é provável que os homens de meu tempo não prestem tanta atenção aos seus ensinos, preferindo lembrá-lo como o homem das muitas mulheres.
- Por que?
- Porque, talvez, eles estejam interessados em ter muitas mulheres, igualmente, para satisfazer seus apetites carnais.
- E as mulheres…
- Seduzirão os homens para obter vantagens.
- Você vive numa época de egoísmo, então…
- Muito! Infelizmente!
- Misericórdia!
- Misericórdia!
Massuia

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